Recentemente, ouvi o relato de uma mãe que passou por uma situação que acende um alerta vermelho para todos nós. A filha, de 8 anos, que estava assistindo TV disse naturalmente para ela: “Mãe, eu não sei se eu sou feliz.”
A mãe estranhou a pergunta, pois ela não parecia vir de um lugar de dor, mas de reflexão. A resposta da menina foi reveladora: “Às vezes parece que sim… mas agora eu tô aqui, só entediada em casa. Enquanto as outras crianças estão se divertindo o tempo todo.”
Ali não havia depressão. Havia comparação!
A menina estava comparando os bastidores monótonos da sua vida real com o palco editado, iluminado e eufórico de um Youtuber infantil. E, nessa comparação desleal, ela se sentiu em falta.
A Ditadura da Alegria Online
Nós, adultos, quando rolamos o feed do Instagram e vemos aquela “vida de comercial de margarina”, muitas vezes sentimos inveja. Sabemos que aquilo é um recorte, mas ainda assim desejamos aquela viagem ou aquele corpo.
Para a criança em formação, o buraco é mais embaixo. Ela ainda não tem maturidade cognitiva para separar o “personagem” da “pessoa”. Ela acredita que a vida daquele influenciador é daquele jeito 24 horas por dia.
Se o padrão de “normalidade” que ela consome é gente gritando de alegria, abrindo presentes e vivendo aventuras constantes, a conclusão lógica que ela tira sobre sua própria rotina pacata é: “Minha vida é chata. Logo, eu não sou feliz.”
A Importante Lição: Felicidade x Entretenimento
A mãe então sentiu a necessidade de intervir e explicar que Felicidade e Alegria são coisas completamente diferentes. E esta distinção é muito importante fazer.
Uma forma de explicar para as crianças esta diferença, é usando a metáfora do Céu e do Clima:
- Alegria e Tédio equivalem ao Clima: O clima muda o tempo todo!
Às vezes faz sol (alegria), às vezes está nublado e parado (tédio). É impossível viver num verão eterno. O Youtuber que sorri por 15 minutos no vídeo também sente tédio, também chora e também fica bravo quando a câmera desliga. Ele só não mostra isso nos seus vídeos.
- Felicidade é o Céu: O céu é o que está por trás das nuvens! É saber que você tem uma família que te ama, uma casa segura, comida na mesa e saúde.
O tédio das férias não é o oposto de felicidade. O tédio é apenas um respiro, um descanso necessário. É o momento em que não está acontecendo nada lá fora, para que a gente possa imaginar coisas aqui dentro.
Como Blindar seu Filho da Comparação Digital
- Faça a “Curadoria da Realidade”: Quando seu filho estiver vendo um vídeo muito exagerado, sente ao lado e comente: “Nossa, eles gritam bastante, né? Sabia que eles ensaiaram para fazer isso? Ninguém fica assim o dia todo na vida real, seria exaustivo!”. Ajude a criança a ver os “fios” da marionete.
- Valide o Tédio: Não tente entreter seu filho o tempo todo para provar que ele é feliz. Se ele disser “tô entediado”, responda: “Que bom! O tédio é ótimo para descansar o cérebro. Daqui a pouco você inventa algo.” Normalizar o tédio é essencial para a saúde mental.
- Reforce o “Offline”: Mostre que a felicidade real geralmente é silenciosa. É o abraço antes de dormir, é o cheirinho de bolo, é a brincadeira com o cachorro. A felicidade real não precisa de like, nem de edição. Felicidade não precisa de platéia.
A Vida Não é um Parque de Diversões
Que em 2026 a gente possa ensinar nossas crianças a amarem a sua vida real, com todos os seus momentos “sem filtro”!
Ser feliz não é viver em um parque de diversões eterno. Ser feliz é ter raízes, segurança e amor – inclusive nos dias em que não há nada de “emocionante” para fazer.

