Há poucos dias, presenciamos uma cena que resume o verdadeiro significado do que é a inclusão e o desenvolvimento na vida real.
O cenário era o seguinte: no chão, duas meninas de 12 anos, ambas no espectro autista, trabalhavam em uma atividade para a escola. Ao redor delas, o movimento da infância: crianças mais novas corriam elétricas pela casa, brincando, falando alto e bagunçando o ambiente.
As duas pré-adolescentes, no entanto, seguiam inabaláveis, unidas pelo interesse naquele projeto. Como já estava ficando tarde e havia outro compromisso familiar, um dos adultos avisou que elas precisariam parar e terminar a tarefa um outro dia. Uma das meninas não hesitou e defendeu a parceria: “Nós vamos terminar, sim”.
Enquanto elas ganhavam mais alguns minutos de trabalho conjunto, a mãe daquela colega suspirou aliviada no canto da sala e desabafou: a filha tinha dificuldades em fazer novas amigas, e vê-la interagir tão bem, dividindo um projeto e defendendo aquele momento, tirava um peso imenso de suas costas.
O mito da “socialização padrão”
O medo da solidão é, disparado, uma das maiores angústias que chegam aos nossos consultórios. Nós fomos ensinados que uma criança “sociável” é aquela que corre no meio de outras quinze em uma festa de aniversário, que é o centro das atenções e que brinca de forma expansiva.
Quando a família atípica tenta encaixar o filho nesse ´´molde social“, o que costuma acontecer é uma sobrecarga sensorial severa. A criança chora, isola-se e os pais voltam para casa com o coração apertado: “meu filho não sabe fazer amigos”.
Mas a neurociência e a observação atenta nos mostram outro caminho. Para o cérebro neurodivergente, a socialização mais rica e genuína raramente acontece nas grandes multidões. Ela acontece no “um a um”. Ela nasce de interesses profundos e compartilhados, onde duas crianças ou pequenos grupos encontram um porto seguro uma na outra, longe das exigências sociais exaustivas. Um lugar onde elas podem ser elas mesmas, sem a pressão dos estereótipos.
A maturidade de saber o seu limite
Com o passar do tempo e o amadurecimento, muitas crianças que fazem acompanhamento terapêutico adequado começam a entender os seus próprios limites.
A vontade de brincar o tempo todo com outras crianças, muitas vezes menores, se submetendo ao barulho e à agitação desordenada, vai passando. Elas percebem que aquele excesso de estímulo drena as suas energias e escolhem, de forma consciente, afastar-se ou focar em uma atividade mais estruturada.
A sociedade muitas vezes confunde isso com “regressão” ou “isolamento”. Mas, na verdade, isso é o ápice da autorregulação. Saber a hora em que você prefere estar sozinho, ou escolher a dedo com quem quer dividir a sua energia, não é solidão. É maturidade emocional. É a prova de que a terapia não ensinou a criança a fingir ser extrovertida, mas sim a respeitar a sua própria essência.
Apoio para conexões reais
Aqui no Ambiente Sol, o objetivo do nosso trabalho com a Psicologia Infantil e com a Assistência Terapêutica (AT) é dar às crianças as ferramentas necessárias para que elas consigam transitar pelo mundo com segurança e construir laços de amizade que façam sentido para elas.
A amizade verdadeira não precisa ser barulhenta. Às vezes, o maior sucesso social que uma criança pode alcançar é simplesmente encontrar alguém que queira compartilhar uma atividade escolar com o mesmo nível de dedicação que ela no tapete da sala.

