´´Ele é inteligente, mas é preguiçoso.“
´´Se quisesse faria, falta esforço.“
Mas e se não for preguiça?
Essas frases são muito comuns quando uma criança começa a apresentar dificuldades de aprendizagem, principalmente com as demandas escolares.
Geralmente, essa frase vem acompanhada de uma frustração genuína dos pais. Eles veem que o filho tem um raciocínio rápido, decora diálogos de filmes e sabe tudo sobre temas específicos.. Mas, na hora de fazer o básico – como se vestir, organizar a mochila, copiar a lição do quadro ou comer sem fazer sujeira – ele trava.
Para os pais, a conta não fecha: “Se ele é capaz de entender coisas complexas, por que não consegue abotoar a camisa? Só pode ser má vontade.”
Preguiça é ausência de vontade. Dificuldade é ausência de recurso.
E essas, são situações completamente diferentes!
Uma das maiores injustiças que uma criança pode vivenciar é ser rotulada como desinteressada quando, na verdade, está enfrentando uma dificuldade visível.
Quando não é falta de esforço, é sobre funcionamento: o cérebro infantil está em desenvolvimento. Funções como atenção, memória de trabalho, planejamento, controle inibitório e organização – chamadas funções executivas – amadurecem ao longo dos anos.
Precisamos separar duas coisas que o senso comum mistura:
- Capacidade Cognitiva (O “Saber”): É a inteligência, o raciocínio, a compreensão.
- Funções Executivas e Praxia (O “Fazer”): É a capacidade do cérebro de planejar, sequenciar e ordenar aos músculos que executem uma tarefa.
Uma criança pode ter um QI altíssimo e, ao mesmo tempo, ter uma dificuldade nas funções executivas ou uma dispraxia (dificuldade de planejamento motor).
Para ela, a ordem “vá se vestir” não é automática. O cérebro dela não processa a sequência: abrir gaveta > escolher roupa > ver o lado certo > passar a cabeça > passar o braço > ajustar. Ela fica parada olhando para o nada não porque é preguiçosa, mas porque o cérebro “travou” no planejamento. Ela está sobrecarregada.
Quando há falhas nesses processos, a criança pode:
- demorar excessivamente para iniciar tarefas;
- esquecer funções simples;
- precisa que expliquem várias vezes;
- evitar atividades que envolvam leitura ou escrita;
- se frustrar com facilidade;
- procrastinar atividades;
- apresentar grande diferença entre o que fala e o que consegue colocar no papel;
- ter desempenho irregular em suas atividades.
Isso não é preguiça. É possível que seja uma dificuldade de processamento.
Sinais de alerta que merecem atenção
Alguns comportamentos merecem um olhar mais cuidadoso:
1 – Sofrimento emocional relacionado à escola:
- choro frequente;
- dores de cabeça ou de barriga antes de ir para aula ou atividades dirigidas;
- frases como ´´sou burro“ou ´´não consigo“;
2 – Desorganização Persistente:
- perde materiais com frequência:
- esquece tarefas:
- não consegue planejar o que precisa fazer
3 – Dificuldade em manter foco:
- se distrai facilmente;
- não termina atividades e propostas;
- parece estar distraído no ´´mundo da lua“
4 – Lentidão excessiva:
- demora tempo demais, além do esperado, para copiar, ler ou escrever
5 – Resistência constante às tarefas:
- evita iniciar atividades que exigem esforço cognitivo
6 – Dificuldade específica em leitura, escrita ou matemática:
- trocar letras persistentes;
- leitura muito silábica após a fase esperada;
- dificuldade em compreender o que lê
O Mito do “Ele faz quando quer”
Outra frase comum: “Ah, mas quando é para montar Lego ele consegue! Então ele faz quando quer.”
Não necessariamente. Atividades de hiperfoco (como Lego ou videogame) liberam dopamina imediata e muitas vezes não exigem o mesmo tipo de coordenação ou planejamento sequencial de tarefas “chatas” e rotineiras.
O fato de ele conseguir fazer uma coisa prazerosa não prova que ele tem controle total sobre as outras áreas. A motivação facilita o caminho neural, mas não cura uma falha de processamento.
Sinais de que NÃO é Preguiça (Checklist de Alerta)
Fique atento se a “preguiça” do seu filho vem acompanhada de outros sinais constantes:
- Desajeitado: Derruba coisas com frequência, esbarra em móveis, tem a letra muito “feia” ou força demais o lápis no papel (tônus muscular);
- Lento: Demora o triplo do tempo dos colegas para copiar ou terminar uma tarefa simples;
- Desorganizado: Perde o material escolar, esquece o que foi fazer no quarto, não consegue seguir instruções com mais de dois passos (memória de trabalho);
- Cansaço excessivo: Ele reclama que “dói a mão” ou “cansa a cabeça” depois de pouco tempo de esforço.
Isso não é falta de caráter. Isso é fadiga cognitiva. O esforço que ele faz para tentar acompanhar o ritmo exigido é tão grande que ele exaure.
Como a Neuropsicopedagogia Ajuda?
Mas a Neuropsicopedagogia nos ensina que essa conta não é tão simples assim. E esse rótulo de “preguiçoso” pode estar mascarando uma dificuldade real de processamento.
O papel do Neuropsicopedagogo é ser o “detetive” desse funcionamento cerebral. Nós não olhamos apenas para o que a criança não faz. Nós investigamos por que ela não faz.
A avaliação Neuropsicopedagógica estrutura um mapeamento do funcionamento cerebral.Ela investiga:
- como a criança aprende;
- quais os seus níveis de atenção;
- como funciona sua memória;
- como organiza o pensamento;
- como lida com a frustração;
- quais são seus pontos fortes;
- quais áreas precisam de intervenção
- É dificuldade de planejamento motor?
- Ou é realmente uma questão comportamental/emocional?
Se for uma dificuldade real, rotular de “preguiçoso” e dar castigo só vai gerar ansiedade e baixar a autoestima. A criança começa a acreditar que é “ruim” ou “incapaz”. Pois quando uma criança escuta repetidamente que ela é preguiçosa, ela internaliza essa identidade.
E a autoestima nasce da competência percebida!
Se a criança acredita que não consegue, passa a evitar o fazer. See evita, não pratica. Se não pratica, não desenvolve. E o ciclo se mantém.
Por outro lado, quando entendemos a dificuldade e oferecemos estratégias adequadas, ela descobre que é capaz – apenas precisa de ferramentas específicas.
Conclusão
Se você sente que existe um abismo entre a inteligência do seu filho e a capacidade dele de realizar tarefas do dia a dia, pare de brigar e busque uma avaliação.
Muitas vezes, o que chamamos de preguiça é apenas uma criança pedindo ferramentas para conseguir mostrar ao mundo todo o potencial que ela tem guardado.
Se existe sofrimento, excesso de frustrações constantes ou queda significativa de desempenho, investigar é um ato de cuidado.
Buscar uma boa avaliação significa que você deseja compreender melhor o modo como seu filho aprende.
E toda criança merece ser entendida antes de ser julgada.

