Atualmente, as estruturas familiares são compostas por múltiplos formatos. Famílias nucleares, extensas, monoparentais, recompostas e muitas vezes com avós participando ativamente da rotina das crianças, seja por apoio afetivo, necessidade logística ou escolha consciente de convivência intergeracional e afetiva familiar.
Esses formatos e presenças são, na maioria das vezes, uma riqueza. Mas também podem trazer desafios silenciosos quando os adultos responsáveis pela educação da criança não compartilham os mesmos critérios, valores, princípios e formas de manejos.
E aí começa o conflito invisível: quando ninguém fala exatamente a mesma língua e a criança fica sem referência daquilo que realmente é imprescindível e inegociável.
Pensem no seguinte cenário/rotina (fato real relatado por um avô), vivenciado por uma criança de 5 anos em esquema de guarda compartilhada e cuidados divididos:
- Na casa do pai, a rotina é militar: horários rígidos, exigência alta.Na casa da mãe, a rotina é fluida (ou inexistente): pode dormir tarde, pode usar telas, e há uma certa cegueira para dificuldades evidentes da criança;
- E, para completar, quando fica com a avó, a criança recebe comida na boca,é servido e atendido em tudo aquilo que deseja, apesar de já dar conta e ter muitas autonomias para sua idade e desenvolvimento.
O resultado? Essa criança se encontrará sem referência, confusa e estagnada em seus processos de desenvolvimento, o que acarretará em reações comportamentais disfuncionais, bem como possível ansiedade infantil.
Quando o desalinhamento começa a aparecer
Diferenças geracionais e estruturais são naturais. Avós e pais educam seus filhos em contextos sociais, estruturais e até mesmo científicos, por vezes, bastante diferentes.
O problema não está na diferença, mas sim na incoerência explícita e no desalinhamento de posturas diante da criança.
Quando um adulto permite algo que o outro proíbe – ou quando há desautorização pública – a criança deixa de ter um referencial estável. E previsibilidade + referência + consistência = são pilares de desenvolvimento emocional saudável!
A Criança e a Confusão de Sinais
A criança precisa de consistência para organizar seu mundo interno. Quando recebe mensagens divergentes o tempo todo, podem surgir:
- testagem frequente de limites;
- aumento de birras e oposições;
- insegurança emocional;
- ansiedade diante de regras;
- conflito de lealdade à parentalidade para com os adultos
Não se trata de manipulação. Trata-se de adaptação ao ambiente. A criança aprende rapidamente onde as regras são mais flexíveis – e isso é um movimento de sobrevivência social.
Imagine que você está dirigindo em um país estranho. Em uma rua, o sinal vermelho significa “PARE”. Na rua seguinte, o sinal vermelho significa “ACELERE”. Como você se sentiria? Ansioso? Confuso? Estressado? Provavelmente você bateria o carro.
É exatamente assim que uma criança se sente quando as regras mudam drasticamente de uma casa para a outra (ou de um cuidador para o outro).
O cérebro infantil precisa de previsibilidade para se sentir seguro. Se a criança não sabe qual regra vale hoje, ela entra em estado de alerta constante.
O que acontece no Campo Emocional
Ambientes inconsistentes geram tensão interna. A criança passa a observar constantemente quem está presente ou em que ambiente está antes de agir. Isso pode comprometer:
- a construção da autorregulação;
- a internalização de limites;
- a formação da segurança afetiva
Quando os adultos não se alinham, a criança fica no centro de uma disputa que não deveria ser dela.
“Ele é manipulador”: O Mito da Criança Duas Caras
Muitos pais chegam na Orientação Parental dizendo: “Meu filho é dissimulado. Na casa do pai ele é um anjo, comigo tem outra cara. (ou vice-versa)”.
Cuidado com os rótulos. A criança não é manipuladora, ela é adaptável. É uma questão de sobrevivência.
- Se ela sabe que na casa da avó a birra funciona para ganhar chocolate, ela fará birra;
- Se ela sabe que na casa do pai a birra gera castigo, ela reprime a emoção (e provavelmente explode depois, no ambiente onde se sente mais segura).
Isso não é falha de caráter da criança. É falha de comunicação dos adultos.
O papel da Autoridade Parental
A condução educativa pertence aos pais! Avós e familiares podem sim contribuir. Mas a função é dos pais!
Isso não significa rigidez, exclusão, mas sim clareza de papéis.
Alguns princípios que ajudam:
- conversar divergências longe das crianças;
- estabelecer regras inegociáveis;
- evitar desautorização públicas;
- preservar o respeito entre gerações
A criança precisa sentir que os adultos são uma equipe – mesmo que tenham estilos diferentes.
Diferença não é o problema. Disputa é!
Famílias saudáveis não são aquelas que pensam igual o tempo todo, mas aquelas que conseguem dialogar e alinhar, pensando em um bem maior: referência para a criança.
Quando pais, avós e cuidadores constroem acordos mínimos, a criança recebe algo precioso: estabilidade emocional.
Estabilidade é o solo onde crescem autonomia, confiança e equilíbrio.
Quando um dos pais é “permissivo demais” e o outro é “rígido demais” (para fazer a compensação), ambos perdem. A criança não aprende nem o limite saudável, nem o acolhimento. Ela aprende a fugir da autoridade e buscar o caminho mais fácil.
Além disso, quando um dos parentes ou cuidadores infantiliza a criança, eles não estão apenas dando “carinho”. Estão roubando a autonomia da criança. Estão enviando a mensagem silenciosa de: “Você não é capaz de se cuidar sozinho, precisa de mim”.
Talvez o verdadeiro pedido de socorro não esteja no comportamento da criança – mas na necessidade de fortalecer a comunicação entre os adultos. Porque quando os adultos se alinham, a criança se organiza.
A Orientação Parental como Tradutora
É aqui que entra o trabalho da Orientação Parental. Muitas famílias acham que não precisam de ajuda porque “amor resolve tudo” ou porque ´´as fases passam“. Mas amor sem alinhamento gera caos e conflitos constantes abalam o amor!
Na Orientação Parental, nós não buscamos definir quem está certo. Nós buscamos o que é funcional para a criança. O nosso papel é:
- Mediar o conflito: tirar a emoção da briga do casal/família e focar no desenvolvimento da criança;
- Estabelecer os “Inegociáveis”: podem haver regras diferentes em casas diferentes? Sim. Mas os pilares (sono, alimentação, medicação, respeito e autonomia, linguagem) precisam ser os mesmos.
- Treinar os adultos: construir técnicas e estratégias práticas para os manejos do dia a dia, que tornam pais, familiares e cuidadores, mais aptos para as demandas que se apresentam ao longo da jornada de contribuir para a formação de outro ser no mundo!
Conclusão: É preciso uma aldeia (mas a aldeia precisa de um chefe)
Se você sente que na sua família cada um rema para um lado e o barco da educação do seu filho está girando em círculos, pare de brigar e busque ajuda profissional.
A Orientação Parental serve para criar esse “manual de instruções” único da sua família. Porque quando os adultos falam a mesma língua, a criança finalmente pode relaxar e apenas ser criança.

