Existe um momento na parentalidade que ninguém nos prepara para enfrentar. É aquele instante silencioso, geralmente tarde da noite, em que a dúvida assombra: “Será que meu filho tem algum problema?”
Imediatamente, um mecanismo de defesa poderoso entra em ação: a negação. Dizemos para nós mesmos: “Não, é só uma fase.” “Ele é igual ao pai, o pai também demorou para falar.” “A escola que está exigindo demais.”
Eu quero começar dizendo que sentir essa resistência é normal. Não é falta de amor. Pelo contrário, é o amor tentando proteger a imagem do filho que idealizamos. Mas, na área da Psicoterapia, sabemos que tirar a venda, embora doa, é o único ato capaz de libertar a criança do sofrimento.
O Luto do Filho Ideal
Quando engravidamos, não gestamos apenas um bebê biológico, gestamos um “Filho Ideal”. Imaginamos que ele será inteligente, sociável, calmo, com bom desenvolvimento de aprendizagens. Projetamos nele a correção das nossas próprias falhas.
Quando a criança real cresce e apresenta dificuldades (seja um atraso na fala, um comportamento diferente, uma timidez paralisante ou uma dificuldade de aprendizagem) ocorre um choque. Para admitir que o filho precisa de ajuda, os pais precisam primeiro viver o Luto do Filho Ideal. Eles precisam se despedir daquela criança perfeita da imaginação para poder abraçar a criança real que está ali, precisando de suporte.
Esse processo dói. E é por isso que tantos pais “fecham os olhos”. Eles não estão negando o filho; estão tentando evitar a dor desse luto.
O Medo do Rótulo (A Sentença que não existe)
Outra emoção que impede a busca por ajuda é o medo do estigma. Muitos pais pensam: “Se eu levar no psicólogo ou neurologista, vão dizer que meu filho tem algum tipo de transtorno e ele vai carregar esse rótulo para sempre.”
Precisamos ressignificar isso urgentemente: Diagnóstico não é sentença! Diagnóstico é mapa!
Diagnóstico não reduz o olhar afetivo, as belezas de cada um, não apaga a individualidade e não determina o destino!
Imagine que seu filho está confuso, perdido dentro dos seus próprios processos, sem entender a si mesmo. Uma investigação e avaliação coerente, bem estruturada, realizada com entrega e engajamento abre bons e leves caminhos e possibilidades para a vida inteira. Um diagnóstico não reduz a identidade de ninguém, nem diminui seus potenciais, sua história ou sua capacidade de desenvolvimento. Ele apenas organiza informações, ele descreve possibilidades específicas e nomeia condições. e quando temos um nome, temos uma direção. Um mapa não diz onde você vai chegar, mas sim por onde começar e quais as melhores estratégias para sua caminhada.
E como todo bom mapa, intervenções psicoterápicas podem ser revisadas, ampliadas, reduzidas e ajustadas ao longo da jornada.
“É só o tempo dele” ou é Negligência?
A frase “cada criança tem seu tempo” é uma verdade perigosa quando usada fora de contexto. Sim, existe uma janela de variação. Mas quando o atraso causa sofrimento, isolamento social ou impede a criança de realizar tarefas que seus pares já fazem, esperar pode ser negligência.
A Intervenção Precoce é ouro. O cérebro infantil tem muita neuroplasticidade (maleável). Realizar uma intervenção psicoterapêutica durante a primeira infância, traz resultados mais eficazes e de forma ´mais simples`do que esperar até a adolescência, por exemplo. Até porque, quanto mais tarde, mais os padrões de ´´fracasso e baixa autoestima“ já estão cristalizados.
Ignorar necessidades é o fator limitante!
O Psicoterapeuta não é um Juiz
Muitos pais evitam as terapias porque sentem que serão julgados. Acham que o psicólogo vai apontar o dedo e dizer: “A culpa é sua, você errou na educação.”
No Ambiente Sol, e na psicologia moderna, isso não existe. Nós não buscamos culpados, buscamos soluções. Aqui você encontra um espaço de acolhimento para a criança e, principalmente, para os pais. É o lugar onde você pode chorar esse luto, expressar seu medo e, finalmente, aprender novas formas de se conectar com seu filho, seguindo fortalecido.
Conclusão: O Maior Ato de Coragem
Admitir que seu filho precisa de ajuda não é um sinal de fraqueza ou fracasso parental. É o maior ato de coragem e amor que você pode ter.
Significa que você ama seu filho o suficiente para suportar a sua própria dor (da quebra da idealização) em troca do bem-estar dele. Tire a venda. O seu filho real é maravilhoso e está esperando você enxergá-lo de verdade.
Mais do que perguntar: ´´O que o meu filho tem? “, talvez a pergunta mais potente seja: ´´O que o meu filho precisa para se desenvolver com dignidade, autonomia, autoconhecimento e pertencimento?“
Quando os pais/família começam a entender isso, o medo começa a ceder lugar à ação consciente.

